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réquiem do abacateiro

era uma vez três árvores.
um extravagante e inconveniente limoeiro, um altíssimo e senhoril abacateiro e uma tímida pitangueira.
com o tempo o limoeiro revelou-se um tanto aturdido subindo no telhado e espiando meu irmão pela janela do quarto.
podamos meu irmão.
o abacateiro mostrou-se satisfeito, já que este era sempre a vítima tendo que suportá-lo a choramingar com o violão a cada fim de namoro.
a pitangueira, mais reservada, só expunha seu caráter durante uns dois meses no ano.
mas eram dois meses de intensa, deslumbrante e deliciosa exposição.
era uma família excêntrica e feliz.
cada um na sua espécie, todos no mesmo reino, divisão e classe.
o trio, que fora casa de inúmeros amigos imaginários meus, deixou-se abandonar em algum canto dos anos que começavam com “199”.
depois de muito tempo sem vê-los, passei por uma rua, em uma colina próxima, e pude vislumbrar o que acontecia por ali.
o limoeiro perdera muito de sua jovialidade, mas continuava a demonstrar certa extravagância ao manter uma bela composição verde-amarelo-prata.
a pitangueira quase não pude notar. encolhia-se em seu canto, mais introspectiva que nunca, a sonhar com os velhos tempos (e disso eu tenho certeza).
lamentava, talvez.
ao seu lado, onde antes se impunha o frondoso e acolhedor abacateiro, brilhava, em toda sua frieza metálica, uma imensa antena de tv.

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Posted: 27/07/2011

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